Um dos comentários que mais ouço quando começo a parte de hemogasometria de um módulo de pós-graduação (fluidoterapia e eq. ácido-base para anestesia) que ministro há muitos anos é "Eduardo, é impossível entender isso. Já desisti." Existe um bloqueio com a hemogaso parecido com o que há nos cálculos de infusões contínuas.
Ok, pegar o artigo original do Henderson, de 1908, e tentar entender a química toda de onde veio a equação de Henderson-Hasselbalch é difícil - pelo menos pra mim. Só que a gente não vai descobrir nada, só vai usar o que já foi descoberto.
A abordagem de Stewart eu também concordo que é mais complicada, envolvendo um esforço bem maior pra entender e aplicar. Deixa ela de lado, por enquanto. A abordagem tradicional, amplamente mais usada na rotina, já torna esse exame valiosíssimo e não é tão complicada. Aliás, essa é uma das análises de exame complementar mais "preto no branco" que existem; é basicamente seguir um roteiro.
Primeiro você registra a temperatura do paciente (o equipamento vai pedir) e confirma a qualidade da amostra, já que erros pré-analíticos (como os causados por bolhas de ar, excesso de heparina, tempo para análise e outros fatores) podem afetar os resultados. Depois, identifica o pH e compara com o valor de referência. Não tem muita interpretação até aqui, você só diz se tem acidemia, alcalemia ou se não tem alteração comparando o pH sanguíneo com a referência.
Em seguida, avalia os dois componentes: metabólico e respiratório, este baseado no CO2 e aquele baseado no HCO3- e identifica a presença (ou ausência) de acidose ou alcalose. Aqui que você identifica se há um ou mais dos quatro distúrbios: acidose metabólica, acidose respiratória, alcalose respiratória e alcalose metabólica. O base excesso também pode ser usado, mas não vou me estender tanto em um post.
O próximo passo é clínico. Agora é seu raciocínio e não o exame que vai te dar a resposta. Aqui você identifica quem é o distúrbio primário a partir do histórico, anamnese e exames físico e complementares, caso haja mais de um concomitante (distúrbios podem coexistir).
E os cálculos? O da compensação, só caso seja necessário e não é tão complicado assim - é uma tabela que você consulta. Correções como o cloro pelo sódio ou o ânion gap em casos de hipoalbuminemia também podem ser necessários. Se houver acidose metabólica, olha o ânion gap pra ter uma lista de classificações da origem do distúrbio.
Por fim, mas não menos importante, há uma série de outras informações que a hemogasometria nos oferece. Nem começamos ainda com a PaO2, no caso do exame ser de origem arterial e dados derivados, como gap alvéolo-arterial de O2. Também não falamos de lactato e eletrólitos que, a depender do equipamento (ou do kit/cartucho), virão no exame em maior ou menor número de variáveis.
Como aprender isso? Estude as bases - tem aula minha e do Guilherme para quem é do GDAV e do GDETIV - e depois vá para os casos clínicos, que volta e meia discutimos nos grupos das duas comunidades.
Além disso, no app do GDVet a gente colocou uma ferramenta de apoio à interpretação da Hemogasometria. Minha sugestão de como usar: pegue um exame e interprete por conta própria, sem a ferramenta. Depois coloque os dados lá e compare. Na dúvida, jogue lá na nossa comunidade que eu, Guilherme e outros participantes da comunidade vamos te ajudar. Se você ainda não faz parte, clique no link abaixo e se junte às centenas de membros do GDAV, se você for da anestesia, ou do GDETIV, se você for plantonista/clínico que atue na emergência.
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